Parte 1 - "No Cinema"
Hoje, durante o jantar, Hugo me disse que um conhecido nosso não gostou de um filme que eu havia indicado. Entre os argumentos, ele enfatizou que não conseguiu ser tocado por aquilo que viu na tela e citou que outros filmes possuíam entrelinhas muito mais comoventes que Amor à Flor da Pele, que foi a obra que eu disse que ele adoraria.

A narrativa é relativamente simples, ao tratar da impossibilidade de uma relação de amor, mas a maneira como isso se concretiza na tela é que faz toda a diferença. O diretor Wong Kar Wai sabe trabalhar com a tensão criada pela convivência nada harmônica entre o desejo e a repressão emocional, que esse tipo de vivência proporciona, e suas personagens trafegam entre o delírio e o desconforto durante todo o desenrolar da história.
O espectador, por sua vez, é convidado a ser confidente desse processo. Não é todo mundo que gosta da idéia, é claro, e tem até quem diga que é um filme essencialmente feminino, embora eu acredite (e acho que até comentei sobre isso uma vez, aqui mesmo no blogue) que a questão de gênero não se aplica desse modo em Amor à Flor da Pele. Os homens podem até perceber o filme de outra maneira, mas não acredito que a integração com o universo sensorial proposto por Kar Wai, em algumas de suas obras, seja exclusiva do sexo feminino.

O que diferencia as duas obras é justamente a maneira como as sutilezas de cada personagem tomam forma por meio da expressão dos atores, dos cenários, da iluminação, entre outros elementos. Wong Kar Wai sabe a diferença entre histórias de amor e vivências de amor; e é isso que torna o que ele filma tão especial.
Parte 2 - "Na Fotografia"
Como o tema do começo da madrugada é a tensão entre querer e poder, não consegui deixar de pensar na minha rotina de menina que gosta de fotografar na rua. Hoje, um pipoqueiro (que, infelizmente, não era seu Otávio), me chamou para dizer que eu precisava pedir autorização para fotografar as pessoas – e eu nem havia fotografado, estava apenas observando como a luz que esquenta as pipocas incidia sobre o rosto das pessoas que estavam em volta do carrinho.
Mais uma vez, eu podia ter apenas dito “desculpe, senhor” e ter me retirado, mas dei uma de bobona e fui tentar conversar com ele sobre algumas questões que envolvem a fotografia. Eu não sei se é mercúrio retrógrado em gêmeos, se são as pessoas que querem falar e não têm mais paciência para ouvir ou se o problema é comigo. O pipoqueiro nem quis me ouvir, virou a cara e, no primeiro dia do ano, me fez sentir uma tremenda imbecil.
Eu fui conversar sobre isso com um amigo fotógrafo, na ocasião de um outro episódio que eu relatei aqui, e ele me disse que são ossos do ofício e que a gente tem que aprender a dialogar. Não estou acostumada a levar fora na rua, é um fato, mas, pelo visto, vou precisar conseguir uma maneira de me relacionar com estas questões nos espaços públicos porque não me vejo fotografando paisagens, embora ache lindo o trabalho de Ansel Adams.
Confesso isso porque quando saio com Hugo para fotografar a cidade são as pessoas que me chamam atenção. É a correria, as expressões do rosto, os gestos, tudo o que diz respeito a essa relação do homem com a vida que ele leva que me atrai, e nem sempre essas coisas podem esperar por um “sim” para serem captadas. Se assim fosse, nem metade das grandes fotografias que admiramos, hoje, teria vindo à luz.
O problema, mais uma vez, é o ambiente de desconfiança que a gente vive. As pessoas partem do pressuposto de que você vai usar a fotografia contra elas e isso é muito sério. Não existe mais aquele direito constitucional de que alguém é inocente até que se prove o contrário. Hoje, o lema é de que todo mundo é desleal até que se prove o contrário. É terrível viver assim e perigoso, também.
É claro que quando a gente ouve os mais velhos fotógrafos falando ou vê filmes como Cidade dos Fotógrafos e Nascidos em Bordéis, embora estas questões permaneçam, o ânimo se renova para encarar o dia-a-dia. Porém, é impossível não voltar para casa pensativa quando alguém te chama na rua e interroga de uma maneira nada amistosa sobre o que você faz quando resolve se expressar com uma câmera.